Segunda, Julho 24, 2017
   
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“Familia Saúde” – Diarreia

A diarreia é definida por um aumento na frequência das dejecções ou diminuição da consistência das fezes.

Pode ser classificada como aguda (duração inferior a duas semanas) ou crónica (duração superior a 4 semanas).

A maioria dos episódios de diarreia aguda é devida a infecções gastrointestinais, geralmente auto-limitadas e facilmente tratadas. Na diarreia crónica, o diagnóstico diferencial é bastante mais vasto, sendo mais frequentes as causas não infecciosas, como a síndrome do intestino irritável, a doença inflamatória intestinal e as síndromes de má absorção.

A história clínica do doente é muito importante para determinar a causa da diarreia. Saber se o doente fez  alguma viagem recentemente, se esteve em contacto com pessoas doentes, se consumiu produtos lácteos não pasteurizados ou carne/peixe mal cozinhados (ex: gastroenterites por Salmonella ou Campylobacter), se tomou algum antibiótico recentemente ou se o doente tem alguma comorbilidade (como imunodepressão por infecção HIV) é importante para definir o melhor tratamento a prescrever. Por outro lado, a caracterização das fezes, nomeadamente a frequência das dejecções diárias, a presença de sangue, muco ou pus e os sintomas associados também são decisivos no diagnóstico.

As doenças diarreicas podem ser agrupadas em várias categorias consoante a sua etiologia:

  • Infecciosa – diarreia provocada por virus (exe:rotavírus, citomegalovírus, adenovírus, etc), bactérias (Shigella, Salmonella, E. coli, Staphylococcus aureus, etc), parasitas (Giardia lamblia, Cryptosporidium parvum, ocasionalmente infestação por lombriga ou ténia) e fungos (Candida albicans, tipica em indivíduos imunodeprimidos)
  • Tóxica – vulgarmente chamada de "intoxicação alimentar". As toxinas podem ser produzidas em alimentos, à medida que as bactérias crescem. Essas toxinas são responsáveis pelos vómitos e diarreia associados. A toxina mais comum é uma enterotoxina, produzida porStaphylococcus sp.
  • Má absorção – diarreia provocada por uma digestão anormal de alguns alimentos, por exemplo a intolerância à lactose, doença celíaca, fibrose cística e má absorção de dissacarídeos.
  • Doença Inflamatória Intestinal – doenças inflamatórias do cólon e intestino delgado onde a diarreia é frequentemente acompanhada por  cólicas, dor abdominal, febre, sangue e muco visíveis nas fezes. As duas doenças representativas deste grupo são a doença de Crohn e a colite ulcerosa.
  • Imunodeficiência – doentes com o sistema imunitário deprimido têm uma maior probabilidade de sofrer infecções intestinais, nomeadamente doentes com imunodeficiência combinada grave, hipogamaglobulinemia, doença granulomatosa crónica e deficiência de IgA
  • Medicamentosa – várias classes de medicamentos podem provocar diarreia, nomeadamente antibióticos e medicamentos utilizados na quimioterapia

Tratamento

O tratamento mais importante da diarreia é assegurar a reposição de fluidos e electrólitos. A maioria dos casos de diarreia aguda é auto-limitada, sendo apenas necessário um tratamento sintomático com ingestão de líquidos (que contenham quantidades adequadas de água, açúcares e sais) e alteração da dieta (para diminuir a diarreia deve-se evitar alimentos ricos em gordura, produtos com cafeina e productos lacteos e derivados; para aumentar a consistência das fezes o consumo de arroz, bananas e massas pode ser benéfico)

Se o doente tiver náuseas ou vómitos, os líquidos devem ser ministrados em quantidades pequenas, mas muito frequentemente, por exemplo, a intervalos de 15 minutos. Se não houver náuseas ou vómitos, podem ser administrados volumes maiores de líquidos.

Para ajudar a prevenir a desidratação existem vários produtos com associações de sais para re-hidratação oral que pode utilizar, consoante a idade e a preferência do doente, como pós para dissolver em água, sumos e gelatinas.

Os fármacos antidiarreicos não sujeitos a receita médica (loperamida) devem ser utilizados com precaução. Apesar de terem uma acção rápida, pois diminuem o peristaltismo intestinal, podem piorar os sintomas no caso de diarreias tóxicas e infecciosas. Assim estes fármacos não devem ser utilizados em doentes com  diarreia sanguinolenta, febre ou distensão do cólon.

Prevenção

O risco de desenvolver as formas mais comuns de diarreia pode ser reduzido quando se utilizam bons hábitos de higiene, incluindo a lavagem das mãos e evitar alimentos, utensílios e outros objetos contaminados. As crianças devem aprender a não colocar objetos na boca. Recomenda-se a lavagem das mãos antes e depois de ir à casa de banho e antes das refeições.

A diarreia do viajante, típica de pessoas que viajam para países da América Latina, Ásia ou África, pode ser evitada tendo o máximo cuidado com os alimentos e líquidos que se consomem. Deve evitar bebidas com gelo e águas não engarrafadas. Os alimentos consumidos nessas áreas devem ser preparados imediatamente antes de servir, e deve evitar alimentos mal cozinhados.

Deve solicitar  assistência médica sempre que apresentar:

  • fezes negras ou com sangue ou se a dor abdominal for grave
  • houver sinais de desidratação, como pele seca, boca seca, fontanelas (moleira) deprimidas em bebés, ou turgor cutâneo anormal (quando a pele é pinçada suavemente, ela demora a voltar ao normal; ou a pele assemelha-se à massa de pão).
  • a diarreia persistir por mais de quatro dias
  • houver outros sintomas que possam indicar um problema mais grave como diarreia intensa ("explosiva"), diarreia sanguinolenta (hemorragia gastrointestinal), tenesmo (dor ao evacuar), febre alta ou febre com calafrios, grandes quantidades de muco nas fezes ou muco apenas, fezes flutuantes e desidratação

Anabela Mascarenhas e Ana Cabral

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